sábado, 13 de dezembro de 2014

Frio – um conto

Era um feriado monótono, como qualquer outro; e sua comemoração  não significava mais nada para mim há muito tempo. Eu estava sozinho. A lareira acesa à minha frente quase não fazia diferença contra o frio daquele dia, estava se apagando. Há mais de cinquenta anos não recebia nenhuma visita, e há mais de trinta não passava alguém pela vizinhança. Todos lentamente se foram sem avisar.  

Minha cadeira balançava fazendo um barulho estranho. Lembro-me de outro tempo, era criança, mesmo feriado, mas nessa data eu acreditava em sua proposta. Talvez eu tenha ao decorrer dos anos ficado cada vez mais frio, para que no final eu combinasse com o clima de meus últimos dias; ou talvez eu tenha ao decorrer do tempo parado de me importar com tudo.  

Minhas mãos estavam enrugadas pelo tempo, e apesar de todo o frio no meu coração, precisava aquecê-las o suficiente para não congelar. Próximo a mim, se encontrava uma pilha de madeira, mais ou menos seca, que eu passaria as próximas horas da noite tentando acender o fogo comEra o meu novo hobbie; era o meu único hobbie.  

Quando todas as madeiras cederam à má vontade e se acenderam, como num choro síncrono de estouros e calor, me senti relativamente cansado. Minhas velhas mãos, tremendo, fizeram um café amargo não agradável o meu paladar, mas eu tomei até o fim, sabiamente, como mamãe tinha ensinado há mais de oitenta anos.  

A casa estava congelando, e quanto mais noite ficava, e quanto mais os anos passavam, mais próximo o gelo chegava à lareira. Tudo: as paredes, janelas, cômodostudo já estava tomado pelo frio, menos um pequeno lugar na sala, onde uma lareira tentava, como podia, espantá-lo.  
Ali, próximo à lareira, o tempo passava de vagar; ou talvez ele realmente não passasse; talvez o tempo tivesse parado para esperar pacientemente minha morte. O estalar do fogo ficava cada vez menos frequente e as chamas se apagavam aos poucosO tempo quase não passava. O fogo se reduzia a cinzas, e mesmo que eu colocasse mais madeira, não surtia efeito como antigamente.  

Por fim, o fogo se esgotou completamente, e meu coração, como uma pedra de gelo, parou de bater. Morri. Em volta de meu corpo o gelo se aproximava mais rapidamente do que nunca. A morte foi tão lenta que nos meus últimos anos eu nem sabia se estava vivo ou morto, mas a velocidade com que o gelo me cobria, tentando arrancar todos os vestígios de minha existência, era incrível. Em menos de um ano eu já estava coberto pela neve, em menos de cinco toda a casa estava enterrada por ela.   

Depois de vinte anos de minha morte, um homem, com sua esposa e filha pequena, construiu uma casa exatamente em cima da minha. Depois de mais alguns anos, quando a menina já era capaz de correr alegremente próximo ao lugar onde a minha lareira se encontrava, mais sete famílias se mudaram para a região. Em menos de trinta, o lugar já era uma vila próspera. Eles nunca perceberam que meu corpo estava enterrado logo abaixo de uma casinha há muito tempo abandonada. Eu fiquei tanto tempo ali, enterrado, observando; vi a vila prosperar e virar uma cidade, e vi a vila desaparecer num piscar de olhos, assim como eu. Mais de dois mil anos se passaram, e eu continuo lá enterrado, e nem se quer se passa na cabeça dos outros a possibilidade de minha existência.  
    
   

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