João cortava o cabelo de suas vitimas – era assim que ele chamava os seus clientes. Para ele não era um trabalho difícil, estava acostumado; seguia uma formula simples criada por ele mesmo: escutava com atenção o que os clientes lhe mandavam fazer, sugerindo uma melhor maneira de faze-lo ou aprimorando suas ideias – sorrindo é claro, sempre sorrindo e lhes olhando nos olhos para passar mais confiança e sinceridade a suas vitimas do seu jogo sujo chamado empreendedorismo – ; fazia seu trabalho cortando suas vítimas (ou melhor, seus cabelos) como é mandado. Seus cortes na maioria das vezes não ficavam bons, chagavam muitas vezes a ficar muito pior do que medíocres, mas o seu ultimo passo de sua formula garantia que os clientes sempre achassem o máximo os seus cortes, seu pequeno e precioso segredo: bajular de uma forma descarada seus clientes até fazer com que os mesmos se convenção que o corte ficou mesmo o máximo. Uma vez ele conseguiu convencer uma velhinha – muito simpática a senhora dona Maria – de que o seu cabelo raspado, assim como ele tinha acabado de cortar ficava ótimo. E a velhinha saiu do seu salão muito contente com sua cabeça rapada ao estilo skinhead. Seus concorrentes do bairro não entendiam – como um cabelereiro tão ruim pode ter tantos clientes? – se perguntavam. O cabelereiro nem esperava ter dias tão ruins como o que estavam por vim.
O seu vizinho Oziris estava sabendo de uma história muito triste sobre João, o cabelereiro, e sua esposa, a pacata dona de casa. Descobriu, quando fazia uma maravilhosa espionagem ao casal que a mulher de João estava desconfiando que seu Marido a traia. Oziris costumava espionar todo mundo, diz sua mãe que ele desde pequeno acha que é o Batman ou alguém parecido com o mesmo, tendo uma obrigação moral de ajudar todos os seus conhecidos e salvar o mundo – mesmo que isso significasse ter que ficar horas e horas em telhados escuros escutando as conversas alheias como uma criança com sérios retardos mentais. Mas o fato é: quando Oziris escutou do telhado da casa do casal a mulher de João gritar “você está me traindo!” e depois “diga quem é ela” decidiu ajudar a pobre mulher. Começou a seguir João para tudo que é lugar que ele ia; desde manha até a noite. E ria quando o seguia ridiculamente pensando “sou o Batman”... “...sou o Batman”.
João já pensava em contratar um guarda-costas e assinar um bom seguro de vida, estava começando a ficar com medo de Oziris. Também pensou em ligar para a mãe de Oziris par lhe informar que a mais de um mês o maldito estava a lhe seguir, mas no fim desistiu, afinal o coitado tem graves retardos mentais, não é de se esperar um comportamento diferente de um tipo tão pobre coitado como este. Quando ia para seu salão de beleza estava lá Oziris seguindo o seu carro com uma bicicletinha muito velha e escrota; quando chegava no salão de beleza, testava lá Oziris sentado na recepção fingindo ler o mesmo jornal por mais de um mês. As vezes João perguntava o que Oziris queria, se precisava de algo, a resposta era “não, meu caro João, só estou lendo esse maravilhoso jornal mesmo, não quero nada não”. ; Quando saia do salão estava lá Oziris de novo com sua bicicletinha perseguir o carro de João até a sua casa: até pensava João que o maldito dormia no seu telhado para escutar as suas conversas dele e de sua cara mulher. Outro dia se passava e a mesma coisa, Osires perseguindo João, e outro e outro e outro, e a mesma coisa.
João não tinha mais paz só pensava no que Oziris estava a fazer – até começou a perder clientes, pois na presença de Oziris ficava muito ansioso, assim não conseguindo aplicar o sua velha formula. Decidiu acabar logo com todo o problema com Oziris, resolveu convida-lo a sua casa para um jantar; Oziris aceitou e a noite chegou.
-Boa noite senhor e senhora, como vão as coisas?
- Bem. Boa noite para ti também, meu querido – a mulher fala.
-Boa noite Oziris – diz o homem com uma voz irritada. Conversam por algumas horas tentando fazer sentido, mas não conseguem, Oziris não deixava. Quando estavam conversando sobre um assassinato que ocorrera há alguns dias Oziris disse “oh não, eu não sou verde”, quando falavam na bolsa financeira Oziris dizia “eu quero pescar no jardim” e ficavam nessa dança até que João, o cabelereiro finalmente falou:
-Muito bem rapaz, eu presumo que você não saiba por que eu te chamei aqui. Pois vou te contar o motivo. Eu tenho percebido que você esta me seguindo a tempo. Por que estas a me seguir? – Oziris fica com uma cara tímida, mas reponde à pergunta mesmo assim:
-Bem, a algumas semanas escutei que o senhor estava traindo a sua mulher então decidi te seguir para ver se era verdade ou não. E a meu ver não é senhor. –A mulher do cabelereiro agradece o nosso pequeno Batman, o cabelereiro quase bate em Oziris, mas ao ver a expressão de alivio na cara de sua mulher também lhe agradece. Quando chegou a hora da despedida Oziris pegou uma faca e esfaqueou os dois a sangue frio. Antes de João morrer perguntou:
-Por que quer nos matar? – Oziris olha com uma cara de psicopata para João e responde num riso solene:
- Por que agora sou o Coringa.
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